Veja o que a COP30 deixou de bom para o transporte

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A COP30 caminha para a final, mas antes mesmo da abertura oficial Belém já havia se transformado em vitrine global de inovação. Governos, empresas e chefes de Estado desembarcaram na capital paraense para apresentar soluções de mobilidade e energia limpa.

Logo nos primeiros dias, os automóveis ganharam destaque. A GWM, da China, colocou 100 carros elétricos à disposição da organização e de delegações de alto nível. A General Motors também marcou presença: retirou de São Caetano do Sul (SP) modelos elétricos como Chevrolet Blazer EV, Equinox EV e Spark EUV, e os levou de carreta até Belém para exposição. No campo da navegação, chamou atenção foram embarcações movidas a célula de hidrogênio como a da Itaipu.

Caminhões e ônibus também avançam

O transporte pesado entrou definitivamente na pauta. A Be8, empresa brasileira de energias renováveis, realizou um demonstrativo na estrada: enviou quatro veículos rumo a Belém, dois abastecidos com biodiesel 100% renovável (Be8 BeVant) e dois com B15. A ideia era comparar consumo e emissões ao longo do trajeto.

O Be8 BeVant, lançado em 2023, é um metil éster bidestilado que pode ser utilizado puro ou misturado ao diesel convencional, sem adaptações no motor. Os testes, aferidos pelo Instituto Mauá de Tecnologia, registraram emissões zero — resultado que reforça o potencial do produto, hoje já comercializado para empresas de todo o país.

No mesmo sentido, a Itaipu também mostrou o bio-syncrude, sintéticos que substituem os combustíveis fósseis, como o bioetanol, o diesel verde ou o querosene sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês). Ele é feito a partir da junção do hidrogênio verde e do biogás, ambos produzidos em Foz do Iguaçu (PR).  

Outra inovação brasileira apresentada na COP30 veio da Marcopolo. A fabricante levou um ônibus híbrido movido a etanol, projetado para operar nas cidades com baixa emissão e autonomia ampliada. O modelo usa um motor térmico para gerar energia e recarregar as baterias que tracionam o veículo. Como funciona com etanol, pode consumir um combustível produzido pela própria agricultura brasileira — como milho ou cana — fortalecendo cadeias locais e reduzindo a pegada de carbono.

Para a Marcopolo, o tema vai além da inovação tecnológica. “Mobilidade sustentável envolve qualidade de vida, eficiência e inclusão social. É uma construção coletiva entre governos, empresas e sociedade”, afirma o CEO André Armaganijan.

O protótipo híbrido apresentado na COP30 segue a mesma lógica do micro-ônibus Volare Attack 9 híbrido, exposto recentemente na Busworld, na Bélgica.

Por que mobilidade urbana importa na COP30

Mobilidade sustentável é peça central da descarbonização global. O transporte urbano responde por parcela significativa das emissões, e o incentivo ao transporte coletivo é considerado uma das formas mais eficientes de reduzir o CO₂ nas cidades. Um único ônibus pode emitir até oito vezes menos CO₂ por passageiro do que um carro individual, segundo estudo da Coalizão dos Transportes, liderada pela CNT.

As medidas propostas prometem reduzir em 70% a pegada de carbono do setor até 2050, o que equivaleria a menos 287 milhões de toneladas de CO₂e na atmosfera.

Entre elas estão a revisão da matriz logística de transporte, o estímulo ao uso de biocombustíveis e a ampliação da eletrificação de frotas, aproveitando a matriz elétrica limpa e renovável.

Volare mostra híbrido e a gás na Agrishow 2025. Trata-se dos modelos Fly 10 GV, Attack 9 Híbrido e Attack 10 Rural.
Volare mostra híbrido e a gás na Agrishow 2025. Trata-se dos modelos Fly 10 GV, Attack 9 Híbrido e Attack 10 Rural.

Combustível do Futuro: pano de fundo das discussões

Grande parte das empresas brasileiras presentes na COP30 tem como referência a Lei do Combustível do Futuro, que estabelece metas e programas para acelerar a transição energética no país. A legislação incentiva o diesel verde (HVO), o combustível sustentável de aviação (SAF), o biometano e tecnologias de captura de carbono.

O Brasil, que já opera com B15 e tem capacidade instalada para elevar rapidamente a mistura a B22, o que poderia gerar economia anual de US$ 150 milhões em importações de diesel fóssil.

O setor movimenta R$ 9 bilhões por ano só em matérias-primas da agricultura familiar, emprega 2,4 milhões de pessoas e já evitou a emissão de 127 milhões de toneladas de CO₂eq — equivalente ao plantio de 930 milhões de árvores.

Recuo em tratado global durante a conferência

Em meio às demonstrações tecnológicas, um movimento político surpreendeu as delegações: o Ministério dos Transportes anunciou o cancelamento da adesão do Brasil ao Memorando de Entendimento sobre Emissão Zero para Veículos Pesados e Médios, a iniciativa Drive to Zero, coordenada pela Colômbia. O país havia assinado o documento horas antes, ao lado de 41 outras nações.

A justificativa foi a existência de “interpretações divergentes” sobre o alcance do memorando. O texto previa que, até 2040, todos os caminhões e ônibus vendidos pelos países signatários fossem de emissão zero — considerando apenas emissões diretas do escapamento. Essa metodologia excluía biocombustíveis do cálculo, colocando o Brasil, líder mundial no setor, em posição desfavorável.

O cancelamento gerou estranhamento pela forma como ocorreu: a adesão foi conduzida pelo Ministério dos Transportes sem participação do Itamaraty.

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