quinta-feira, janeiro 15, 2026

As doenças psicológicas que os caminhoneiros enfrentam

ManifestaçõesAs doenças psicológicas que os caminhoneiros enfrentam

O portal Pé na Estrada vem alertando, com frequência, sobre a falta de caminhoneiros no Brasil e no mundo.

Hoje, a reflexão é sobre como os profissionais da estrada estão mais expostos a fatores que afetam diretamente a saúde mental — como as doenças psicológicas.

No contexto do avanço das discussões sobre segurança psicológica no trabalho, especialistas, autoridades e caminhoneiros relatam como o estresse e o isolamento impactam a categoria.

Doenças psicológicas que os caminhoneiros enfrentam

Segundo Emerson André, o “Facebook”, há 16 anos na estrada, há muitos motoristas ficando doentes, porque o estresse do cotidiano e o trajeto se torna cansativo.

Já Daniel Lima, o “Del caminhoneiro”, roda há 26 anos explica:

“Às vezes a tensão na estrada, ela é constante. Mas aí, são muitos anos de estrada, e a gente aprende muito. Então, você acaba aprendendo a dominar também o momento de raiva ou tensão.”

Enfrentar a solidão e manter a calma na estrada nem sempre é fácil. Agora, a atualização das diretrizes de saúde e segurança no trabalho no Brasil incluiu essas questões na Norma Regulamentadora 1, do Ministério do Trabalho e Emprego, que também rege o trabalho dos caminhoneiros.

Veja também: Por que os caminhoneiros dormem?

Por que os caminhoneiros dormem?
Por que os caminhoneiros dormem?

O que dizem os especialistas?

Segundo Barbara Lippi, neurocientista e fundadora da Moodar, empresa que trabalha com segurança psicológica, a atualização da norma incluiu a obrigatoriedade de todas as empresas do país identificarem os riscos psicossociais de seus trabalhadores.

“Isso significa que não basta apenas cuidar da parte física e prevenir acidentes. Agora, as empresas também precisam olhar para os fatores que afetam o bem-estar psicológico, como estresse, fadiga, sobrecarga. E é importante diferenciar. Não estamos falando da saúde mental do indivíduo, mas sim dos riscos do ambiente de trabalho que podem levar ao adoecimento coletivo.”

Nova regra para empresas no Brasil

As empresas brasileiras têm prazo de um ano para se adequarem a atualização da norma. O procurador do trabalho Paulo Douglas de Moraes, da 24ª Região, que abrange Mato Grosso do Sul, reconhece a saúde mental como um problema estrutural da cadeia logística do transporte rodoviário.

“A saúde mental vem se colocando, até porque o aumento vem sendo exponencial na economia como um todo, e em especial no setor de transporte, provocando um fenômeno que foi apelidado e é apelidado de ‘apagão de motorista’. Boa parte dessa falta de mão de obra no setor está associado a uma perspectiva negativa e de ordem subjetiva, de ordem mental, em relação aos profissionais.”

Os caminhoneiros estão sumindo

Além disso, conforme o procurador, os caminhoneiros estão envelhecendo. A média de idade desses trabalhadores é de 46 anos e os jovens não se interessam pela profissão.

O coordenador-geral de segurança viária da Polícia Rodoviária Federal, Jefferson Almeida, avalia o fator saúde mental.

“A gente não tem aqui na Polícia Rodoviária Federal, dados de pesquisa referente à saúde mental, propriamente dita, para afirmar com precisão. Agora, da nossa observação, a gente percebe, sim, que isso é um fator que deve ser considerado.” 

Alan Medeiros, da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos, acredita que o caminhoneiro não gosta muito de se expor emocionalmente.

“É uma característica dele, ele dificilmente expor problemas psicológicos, situações adversas com relação ao comportamento dele. É comum a gente perceber que queixas relacionadas a problemas físicos, dores nas costas, por exemplo, questões de obesidade. Mas quando a gente trata de problemas psicológicos, há uma espécie de blindagem no caminhoneiro porque ele não quer demonstrar fragilidade.”

Motoristas foram avaliados em pesquisa

A pesquisadora Michelle Engers Taube, doutora em Psicologia pela Unisinos, comprovou a gravidade da jornada exaustiva dos caminhoneiros ao avaliar a saúde mental de 565 profissionais da estrada.

“A gente tem elencado então fatores que podem acometer os caminhoneiros, então o fator que mais impactou foi a jornada de trabalho, principalmente porque é uma jornada extensiva e que não se dá somente em relação ao trabalho, ela acaba trazendo um comprometimento das outras áreas da vida do caminhoneiro.”

O psiquiatra e representante da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), Alcides Trentin Junior, afirma que a sociedade minimiza os danos de dirigir por longos períodos.

“Dirigir como motorista profissional com essa jornada de trabalho precisa ser enxergado como uma profissão penosa, tanto pelo estresse físico, químico, biológico e mental que esse motorista sofre por tantas horas dentro de um veículo.”

Para Trentin Junior, a busca por dinheiro e recursos acaba pesando mais que a própria qualidade de vida da categoria. E sem o transporte feito pelos caminhoneiros teríamos um colapso dentro do sistema de transporte no Brasil.

A Agência Brasil produziu a reportagem “Caminhoneiros enfrentam doenças psicológicas nas longas jornadas”.

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