A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) reforçou a atuação preventiva nas rodovias federais concedidas diante da previsão de um El Niño muito intenso no segundo semestre de 2026. A estratégia combina fiscalização, monitoramento das concessionárias e instrumentos regulatórios voltados à adaptação da infraestrutura, com foco na redução de riscos e na garantia da segurança e da continuidade do tráfego durante eventos climáticos extremos.
Entre as medidas acompanhadas pela Agência estão o monitoramento das condições das rodovias, a preparação para respostas emergenciais e os investimentos das concessionárias em drenagem, contenção de encostas e prevenção de incêndios. A resiliência climática também passou a integrar de forma mais estruturada os novos contratos de concessão, ampliando a capacidade de resposta do setor a situações como enchentes, deslizamentos, estiagens severas e queimadas.
A mobilização ocorre em um cenário de atenção meteorológica. O El Niño, caracterizado pelo aquecimento acima do normal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, altera a circulação atmosférica e influencia o regime de chuvas e as temperaturas em diferentes regiões do Brasil. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o fenômeno já está estabelecido e apresenta probabilidade superior.
Na Região Sul, a previsão é de chuvas acima da média, com maior risco de alagamentos, erosões, quedas de barreiras e danos à infraestrutura rodoviária. Já no Centro-Norte, a combinação de estiagem e temperaturas elevadas aumenta o risco de ondas de calor e incêndios florestais, além de deixar acostamentos e taludes mais vulneráveis a rachaduras e desmoronamentos.
Fiscalização e prevenção nas rodovias
A atuação preventiva faz parte do acompanhamento permanente realizado pela ANTT nas rodovias concedidas. Por meio do Plano Anual de Fiscalização da Infraestrutura e Operação Rodoviária (PAF), a Agência define a periodicidade e o escopo das inspeções de cada concessionária. Diante de eventos extremos, cabe às concessionárias intensificar o monitoramento. Assim como sinalizar áreas de risco, remover barreiras e adotar as medidas necessárias para restabelecer o tráfego com segurança e agilidade.
A preocupação encontra respaldo nos dados sobre a infraestrutura do país. A Pesquisa CNT de Rodovias 2025 avaliou 114.197 quilômetros de malha pavimentada e identificou 2.146 pontos críticos, contra 2.446 em 2024.
O levantamento também aponta diferença entre os modelos de gestão. Nas rodovias concedidas, foram registrados 70 pontos críticos, contra 2.076 naquelas sob gestão pública. Essa densidade significa cerca de dez vezes maior nas rodovias sob gestão pública. Os dados reforçam a importância de incorporar a resiliência climática à gestão e aos contratos de infraestrutura.
Resiliência incorporada aos contratos
Além da fiscalização, a ANTT vem fortalecendo instrumentos regulatórios para estimular investimentos em infraestrutura mais preparada para eventos extremos.
O Programa de Sustentabilidade para Infraestrutura de Rodovias e Ferrovias Federais (PSI) cria incentivos para investimentos em ações como sistemas de drenagem. Além de contenção de encostas e prevenção de incêndios.
A Portaria nº 622/2024 estabelece que novos projetos de concessão destinem, no mínimo, 1% da receita bruta a ações de resiliência. As concessionárias que aderem voluntariamente ao PSI podem ter acesso a um incremento adicional de 2% na receita para projetos de descarbonização e resiliência climática. A medida será associada a instrumentos de financiamento, como debêntures incentivadas e mecanismos de reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos.
Até agosto de 2026, 31 concessionárias haviam aderido voluntariamente ao PSI — 21 do modal rodoviário e dez do ferroviário. Treze já atingiram o nível mais exigente do programa.
O mercado também tem ampliado o uso de instrumentos para financiar investimentos em infraestrutura. Somente em 2024, o setor de infraestrutura emitiu R$ 132 bilhões em debêntures no país.
Lições da tragédia climática no Rio Grande do Sul
A experiência recente também ajudou a aperfeiçoar a atuação regulatória. Durante a tragédia climática que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024, a ANTT manteve acompanhamento contínuo das intervenções emergenciais na BR-386/RS, administrada pela ViaSul.
A fiscalização envolveu relatórios técnicos, registros fotográficos e monitoramento de interdições e ocorrências durante a resposta à crise. A experiência se tornou uma das referências para o aprimoramento dos mecanismos de resposta a eventos extremos.
Riscos para empresas de grãos e logística
Os eventuais impactos do fenômeno climático El Niño na safra 2026/27 de grãos no Brasil podem afetar direta ou indiretamente empresas ligadas ao setor. Analistas ouvidos pelo Valor afirmam que os riscos são maiores para empresas produtoras de commodities. Como a SLC Agrícola, mas há sinais de alerta também para grupos que operam na logística de escoamento, como Hidrovias do Brasil e Rumo.
“O portfólio de terras deles (SLC) é bastante localizado entre Mato Grosso e Matopiba, regiões que, historicamente, foram expostas a El Niños”, afirma Guilherme Palhares, analista do Santander.
No segmento de logística, Filipe Nielsen, analista do Citi, observa que, para o banco, as secas podem afetar as colheitas e/ou reduzir os níveis dos rios, prejudicando as condições para a navegação de barcaças.
Na falta de transporte de hidroviário, caminhões serão necessários
Uma das preocupações das empresas que transportam cargas agrícolas pelos rios do Norte do país é que a redução dos níveis das águas, causada pela falta de chuvas, afete a navegabilidade. Por isso, defendem a realização de dragagem de manutenção no rio Tapajós, medida que depende de autorização do governo federal.
Segundo Ronei Glanzmann, CEO do MoveInfra — que representa as companhias Rumo, Santos Brasil, Ultracargo, Hidrovias do Brasil, Motiva e EcoRodovias —, até 5 milhões de toneladas de grãos podem deixar de ser transportadas pela hidrovia do rio Tapajós se a dragagem de manutenção não for realizada.
Ao Valor, a Casa Civil informou que as avaliações realizadas até o momento indicam que a navegação local poderá ser mantida mesmo em um cenário de redução do nível das águas, assegurando o abastecimento das comunidades ribeirinhas. Segundo o órgão, caso seja necessário escoar cargas maiores, “há fluxo rodoviário regular e os planos de contingência preveem a realização de intervenções nas rodovias para o eventual aumento do número de caminhões”.
Caso as cargas atualmente transportadas pelo rio Tapajós precisem ser escoadas por rodovia, a MoveInfra calcula que o custo adicional com frete pode chegar a R$ 850 milhões para o setor.
Filipe Nielsen, do Citi, observa ainda que o clima pode influenciar os volumes produzidos nas safras e, consequentemente, a demanda por transporte ferroviário pela Rumo. Procurada, a companhia não comentou.
Cuidado antes de viagens pelas rodovias
Para quem viaja ou transporta cargas, a recomendação é acompanhar as condições da rodovia antes de iniciar o deslocamento. Especialmente durante períodos de chuvas intensas, ondas de calor ou estiagem prolongada.
Em situações de maior risco, as concessionárias devem reforçar o monitoramento das vias e comunicar eventuais interdições, desvios ou restrições de tráfego. Antes de viagens longas, especialmente na Região Sul ou em áreas historicamente suscetíveis a incêndios florestais, os usuários devem consultar os canais de atendimento da concessionária responsável pelo trecho e verificar a existência de alertas ativos.
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Filha de caminhoneiro, formada em jornalismo, resolveu usar a comunicação para manter a classe bem informada e, com isso, formar novas gerações de motoristas profissionais cada vez melhores para o futuro do país.