quarta-feira, julho 17, 2024

Vendedora de pano de prato junta dinheiro para comprar caminhão

“Moça do pano de prato” é o futuro QRA de Vanessa Souza Santos, 31 anos, vendedora de pátio de posto que junta dinheiro para comprar um caminhão. Se você já passou por algum pátio de posto, entre Campinas e o km 56 da Rodovia dos Bandeirantes, no Estado de São Paulo, é possível que já tenha se deparado com ela.  Ela escolheu esse apelido como QRA quando tornar-se caminhoneira porque é da venda dos panos de prato que a jovem ambulante tira o sustento da família e a economia para a aquisição de um caminhão Constellation 24.250.

Todos os dias, às 7h, Vanessa sai de Campinas (SP), cidade natal, com seu estoque de panos, direto de fábrica, no bagageiro da moto. “Faça sol, faça frio, faça chuva, estou lá”. A comerciante só volta para casa quando alcança sua meta diária de R$ 200,00 com venda de panos e paçoquinhas.

No posto faz a abordagem recheada de simpatia: “Oi gente, meu nome é Vanessa. Todo dia eu saio lá de Campinas e pau no gato. Eu trabalho com pano de prato tem cerca de nove anos. É três [panos] por dez [reais]. É útil para vocês e tá ajudando a comprar meu caminhão”, interpreta.

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O sonho de ser caminhoneira

Muitas Cristais, mulheres de caminhoneiros, tornam-se estradeiras por influência do companheiro. E é comum que também tenham alguma referência familiar, pai, tio ou irmão, que trabalhem na profissão. Com Vanessa foi diferente, pois além de não ter nenhum parente motorista, ela não é esposa de estradeiro. Foi por pouco, na verdade. 

Conforme conta, o primeiro namoro, aos 14 anos, foi com um jovem caminhoneiro. Ela o acompanhava em viagens de tiro curto. Essas idas ao trecho foram suficientes para despertar nela o encanto pela vida na estrada. Do relacionamento, que durou cerca de três anos, só restou mesmo a paixão pelo caminhão, que também ficou adormecida após o rompimento, pois se afastou desse cotidiano. 

“Eu tinha apagado ele e o caminhão da minha vida, porque a gente se separou e eu virei a página e nisso o caminhão foi junto”. Pouco tempo depois desse término reencontrou um antigo amigo, o metalúrgico Anselmo, 32, com quem se casou. Em seguida vieram os filhos, Sabrina, 11, e André, 9.

O retorno ao trecho como vendedora de pano de prato

Vanessa chegou a ter um salão de beleza, que não prosperou. Vivendo uma fase ruim na vida, a jovem, já com 24 anos, resolveu vender panos de prato na feira para ajudar nas despesas de casa. Por lá a concorrência era tão grande que acabou não sendo tão bem-vinda.

“O pessoal da feira começou a embaçar. Até que um dia, sentei na calçada e pensei: ‘o que eu vou fazer agora pra vender meus panos de prato?’. Daí eu lembrei: ‘Caramba, os caminhoneiros têm caixa cozinha’. Lembro que falei: ‘Vixe, vou ver o que vai dar. E fui'”. 

Deu muito certo, pois Vanessa começou a lucrar bem mais do que esperava. De acordo com a comerciante, o segredo de seu sucesso vem do carisma como vendedora, da necessidade dos caminhoneiros e do bom coração de alguns estradeiros, que compram até mais para ajudá-la.

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Pano de prato e caminhão: as duas paixões de Vanessa

Quando começou a vender os panos de prato, Vanessa tirou a CNH categoria D e traçou um plano para comprar seu caminhão. Todo mês separava uma parte só para essa finalidade, prática que faz até hoje. A comerciante já tinha juntado um bom dinheiro para financiar o veículo, mas acabou se separando do marido. Isso aconteceu há uns cinco anos.

Com isso, a jovem pegou o dinheiro das economias e financiou uma casa, que continua pagando até hoje. Pouco tempo depois, Vanessa reatou o casamento, mas já tinha destinado o dinheiro para a casa. Logo, a realização do sonho do caminhão foi adiada novamente. Ela acredita que em dois anos conseguirá quitar a dívida com o banco e depois… “Tô pensando em vender a minha casa e comprar a carreta”, comenta.

A vendedora conta que, antes da separação, o marido não era a favor de que ela entrasse na área, mas depois passou a apoiá-la. “Eu até entendia ele, porque a vida de caminhoneiro é sofrida. Você sai e não sabe quando volta”. Já os filhos, sempre a incentivaram, garante, e planejam acompanhá-la nas viagens.

O plano futuro da família é morar na Bahia e Vanessa de trabalhar por lá como carreteira, comprando frutas dos produtores e vendendo no Ceasa. Ou ainda fazendo outros fretes como caminhoneira autônoma. Por enquanto, dá-lhe vender pano de prato para conseguir alcançar o sonho.

Para ela, isso não é nenhum sacrifício “Eu amo e admiro o que faço. Não é toda mulher que sai com sua moto para fazer isso. Sou ambulante com muito orgulho”. É por isso que, quando ganhar as estradas, ela pretende juntar as duas profissões e continuar vendendo os panos de prato em outros pátios. 

Atenção redobrada  

Em alguns postos, o tratamento por parte dos motoristas é respeitoso, mas sempre tem um engraçadinho, segundo ela, que confunde simpatia com disponibilidade. Ainda assim, existem estabelecimentos que Vanessa só percorre com a moto para evitar certas abordagens constrangedoras. 

A ambulante relata que já sofreu diversos tipos de importunação sexual, que ela chegou a notificar para os donos dos espaços. Para ela, a vida na estrada é complicada para as mulheres “Infelizmente, a sociedade te taxa, já te julga. Em alguns locais ainda dá pra denunciar, em outros não. Porque eu vendo pano. O motorista, querendo ou não, tá dando lucro para o dono do pátio quando deixa o caminhão lá estacionado”.

O Programa Mão Certa forneceu dados sobre a pesquisa “Mulheres na Logística” realizada pela empresa FreteBras. O estudo ouviu 202 mulheres (caminhoneiras e operadoras de logística) sobre seu trabalho nas estradas. Um dos resultados, foi que 50% das entrevistadas relataram que já sofreram preconceito ou foram constrangidas. Para evitar esses casos, elas relataram se privarem de usar certos tipos de roupa ou maquiagem e se comportarem de maneira mais séria.

É importante lembrar que importunação sexual é crime grave, previsto no Código Penal Brasileiro e sujeito à punição. Essas condutas, muitas vezes, são naturalizadas, porque aparecem em forma de flertes ou cantadas. Mas fique atento, qualquer situação de constrangimento não deve ser considerada como normal.  

Caso presencie ou vivencie tal situação envolvendo crianças, adolescentes, mulheres e outros públicos mais vulneráveis, denuncie por meio dos seguintes telefones: 

  • 190 – Polícia Militar 
  • 191 – Polícia Rodoviária Federal
  • 194 – Polícia Federal
  • 197 – Polícia Civil
  • 100 – Disque Direitos Humanos 
  • 180 – Central de Atendimento à Mulher Vítima de Violência

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A relação com a turma do trecho e a importância do trabalho de Vanessa

Vanessa fez amizade com muitas caminhoneiras de quem já colhe dicas para a futura vida de estradeira. Além disso, tem muitos colegas caminhoneiros, que até disputam sua companhia para almoçar. “Tem muito motorista gente boa, que você vai oferecer o pano e nem o pano ele quer, só dá o dinheiro para ajudar”.

Ela conta que, certa vez, um rapaz comprou seus panos de prato e depois a chamou de volta no caminhão. Desconfiada, fingiu que não ouviu por receio de levar uma cantada. Na hora de ir embora, o caminhoneiro parou ao seu lado com o caminhão e disse: ‘Deus mandou eu te dar isso’. O motorista lhe deu R$50,00. 

Para ela, seu papel como vendedora é importante, pois ela é uma parceira dos caminhoneiros. Além de oferecer panos de prato, lava roupa dos motoristas, faz frete de mercado e restaurante com a moto e tudo mais que for serviço honesto e remunerado, afirma. “E ainda sou meio psicóloga, cada história que escuto”, acrescenta.

A “moça do pano de prato”, que também é conhecida como a “guerreira do trecho”, acredita que essa interação com os estradeiros e estradeiras a ensina como enxergar a vida de um jeito diferente. 

Por Jacqueline Maria da Silva. 

 

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