Na semana em que entra a atualização da norma NR-1 que inclui os riscos psicossociais, chega ao Pé na Estrada a história de um caminhoneiro que sofreu um burnout na profissão.
O burnout é uma síndrome de esgotamento profissional caracterizada como um distúrbio psíquico causado pelo estresse crônico no ambiente de trabalho. Provocada pelo acúmulo de tensão, a condição apresenta sinais físicos, emocionais e comportamentais e se assemelha a muitas das queixas relatadas por motoristas sobre o trabalho.
A doença é reconhecida oficialmente no Brasil pelo Ministério da Saúde como relacionada ao trabalho desde 1999, por meio da Portaria nº 1.339. Em nível global, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu o burnout como doença ocupacional, em 2012, com a entrada em vigor da CID-11 (Classificação Internacional de Doenças).
O caso de um motorista que está há 26 anos na profissão e chegou a esse estado mostra o que muitos caminhoneiros enfrentam nas estradas brasileiras. Além da pressão por horários, das longas horas de espera para carregar e descarregar e da falta de infraestrutura nos pontos de parada, muitos profissionais afirmam não receber um salário compatível com todo o desgaste físico e mental da atividade.
Motorista é diagnosticado com burnout e não consegue parar para se tratar
O motorista que procurou o Pé na Estrada para relatar seu diagnóstico de burnout afirmou que, apesar de estar há muitos anos na profissão, pouco se tem feito em relação à saúde mental dos caminhoneiros. Na rotina dos rodotrens, ele disse que seu caso não é isolado e que muitos profissionais do volante estão à beira de um colapso.
“Eu não sou uma exclusividade. Todo motorista está sob pressão, e essa pressão está muito grande, passou de todos os limites. Claro que eu sabia que estava chegando nessa situação, porque o cotidiano leva a gente a isso. Mas nós, motoristas, de forma geral, tentamos manter um equilíbrio psicológico, porque aprendemos a segurar a barra até cair numa doença dessas.”
O caminhoneiro, que preferiu não se identificar após ter problemas com a empresa, é natural de Rio Negro (PR) e tem 43 anos. Segundo ele, recebeu o diagnóstico e iniciou o tratamento com a medicação indicada, mas acabou sendo demitido pouco tempo depois.
Com isso, recebeu uma proposta para trabalhar em outra empresa e interrompeu o tratamento por receio de não passar no exame toxicológico. Assim, continuou trabalhando, pois não tinha reserva financeira para fazer uma pausa na profissão ou deixar de trabalhar naquele momento.
“Eu nunca tinha ouvido falar em burnout. Fui ouvir falar por causa da Dra. Fran Curse, mas não conhecia o nome. Eu já tinha conhecimento dessa situação, só não sabia como se chamava. Nunca esperei que fosse acontecer comigo.”
Todos querem cobrar do motorista e ninguém oferece suporte
Ele reforça que o cotidiano do motorista é tenso o tempo todo. Segundo ele, muitas pessoas enxergam o caminhoneiro como alguém estressado, mas afirma que poucos profissionais suportariam a rotina enfrentada nas estradas.
“Motorista dorme no trabalho, acorda no trabalho, faz necessidades no trabalho, vive dia e noite no trabalho, longe da família. Tudo isso vem junto com a pressão na cabeça do motorista. Quando se trata de alimentação, come mal, na hora que dá e o que tiver para comer. Quando precisa carregar, ainda tem que participar do carregamento e fazer coisas que não são da sua alçada, sendo que o motorista é responsável pelo transporte, não pela carga.”

Além disso, o caminhoneiro aponta a fiscalização da Polícia Rodoviária Federal, os radares e os sistemas de rastreamento como fatores que aumentam o estresse da profissão. Sobre as câmeras, ele diz concordar com as externas, que podem ajudar o condutor, mas considera as internas uma invasão e uma falta de respeito com o profissional.
Caminhoneiro procurou ajuda da empresa e não teve retorno
O caminhoneiro disse que percebeu que havia chegado a um nível que não conseguiria mais suportar e decidiu procurar os gestores da empresa. Segundo ele, apresentou a situação que estava vivendo, mas não recebeu retorno efetivo.
“O máximo que eu consegui de resposta foi um ‘vamos ver’. Acho isso uma incompetência tremenda dentro de uma empresa. O gestor está ali para resolver os problemas dos motoristas, mas muitos apenas empurram a situação para frente. Esse jogo de não resolver nada só piora a condição do motorista.”
Para o paranaense, a remuneração do motorista é um problema importante, mas a falta de suporte contribui ainda mais para o desgaste psicológico da categoria. Ele compara a saúde mental dos caminhoneiros a uma panela de pressão: todos estão suportando a pressão, mas ninguém sabe quando ela vai explodir.
Sobre o próprio diagnóstico, ele afirma que os motoristas trabalham no limite mental e financeiro, o que o impediu de parar para se tratar. Segundo ele, a única alternativa encontrada foi buscar uma empresa com rotina menos desgastante, como a atual.
O caminhoneiro também afirma que muitos profissionais têm medo de revelar o diagnóstico às empresas devido ao risco de demissão ou de serem ignorados. Sentindo-se prejudicado pela forma como saiu do último emprego, ele pretende buscar medidas judiciais.
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Filha de caminhoneiro, recém-formada em jornalismo, resolveu usar a comunicação para manter a classe bem informada e, com isso, formar novas gerações de motoristas profissionais cada vez melhores para o futuro do país.