terça-feira, setembro 29, 2026

Importação de pneus de carga avança 116,2% no ano e acende alerta na indústria nacional

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A forte expansão das importações de pneus vem aumentando a pressão sobre a indústria instalada no Brasil. O cenário é especialmente preocupante no segmento de pneus de carga. Entre janeiro e agosto, as importações cresceram 116,2%, enquanto as vendas das fabricantes nacionais para o mercado de reposição recuaram 9,8%. Com isso, os produtos nacionais passaram a representar 28% desse mercado, enquanto os importados ficaram com 72%.

No acumulado até agosto, as fabricantes instaladas no Brasil venderam 2,75 milhões de pneus de carga para reposição, ante 3,05 milhões no mesmo período de 2025. As vendas totais de pneus de carga nacionais também recuaram 7,2%, para cerca de 4 milhões de unidades.

O segmento tem importância estratégica para o país devido à forte dependência do transporte rodoviário para a movimentação de mercadorias e passageiros. Segundo a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP), a perda contínua de capacidade produtiva no país pode aumentar a exposição brasileira à oferta, aos preços e às condições logísticas internacionais de um produto essencial para a economia.

 

Importados ganham espaço no mercado de reposição

Entre janeiro e agosto de 2026, as importações de pneus cresceram 58,3%, enquanto as vendas das fabricantes nacionais para o mercado de reposição recuaram 13,3%, na comparação com o mesmo período de 2025, segundo dados da ANIP e do ComexStat.

Os pneus importados passaram a responder por 70% das vendas de reposição, enquanto a participação das fabricantes instaladas no Brasil caiu para 30%. Em 2019, a relação era inversa: a indústria nacional detinha 66% desse mercado, contra 34% dos importados.

Em volume, as fabricantes nacionais venderam 14,6 milhões de pneus para reposição entre janeiro e agosto, ante 16,9 milhões no mesmo período de 2025. As importações, por outro lado, passaram de 21,6 milhões para 34,2 milhões de unidades.

“Estamos assistindo à destruição da indústria nacional de pneus e isso terá consequências graves para o país. Não se trata apenas de uma oscilação de vendas. A indústria instalada no Brasil perde espaço de forma contínua para produtos importados, muitos deles comercializados em condições que consideramos desleais. Se essa trajetória continuar, colocaremos em risco empregos, investimentos e a capacidade de produzir no país um item essencial para uma economia que depende fortemente do transporte rodoviário”, afirma Rodrigo Navarro, presidente da ANIP.

 

Importados dominam mercado de pneus de passeio

A pressão também ocorre no segmento de pneus de passeio e comerciais leves, que representa o maior mercado da indústria. Entre janeiro e agosto, as vendas das fabricantes nacionais para reposição recuaram 14,1%, de 13,8 milhões para 11,9 milhões de unidades.

No mesmo período, as importações avançaram 47,8%, de 18,3 milhões para 27 milhões de pneus. Os produtos importados passaram a responder por 69% do mercado de reposição de pneus de passeio e comerciais leves, enquanto a participação da indústria nacional caiu para 31%.

Em 2019, os fabricantes nacionais detinham 65% desse mercado, enquanto os importados representavam 35%.

Os números mostram uma mudança na composição do mercado. Entre janeiro e agosto de 2019, as fabricantes nacionais venderam 17,5 milhões de pneus para reposição. No mesmo período de 2026, o volume caiu para 11,9 milhões. As importações, por sua vez, subiram de 9,4 milhões para 27 milhões de unidades.

 

Queda nas vendas pressiona empregos e investimentos

A redução da participação da indústria nacional pressiona uma cadeia produtiva que reúne 19 fábricas em sete estados, emprega diretamente 35 mil pessoas e gera mais de 500 mil empregos indiretos.

O impacto também alcança fornecedores de matérias-primas, como borracha natural, aço, produtos têxteis e químicos. Para a ANIP, a perda persistente de mercado para produtos importados pode comprometer os níveis de produção, os empregos e futuras decisões de investimento no Brasil.

A associação também alerta para o risco de uma redução estrutural da produção doméstica aumentar a dependência brasileira de fornecedores externos de um produto essencial para o transporte rodoviário.

 

China amplia participação nas importações

A China ocupa posição central no crescimento das importações, principalmente no segmento de pneus de passeio. Entre janeiro e agosto de 2026, o país respondeu por 81% das importações brasileiras de pneus de passeio, com aproximadamente 21,8 milhões de unidades, alta de 49% em relação ao mesmo período de 2025.

No segmento de pneus de carga, as importações provenientes da China chegaram a aproximadamente 2,64 milhões de unidades, crescimento de 78% na comparação anual.

Os dados de julho sobre pneus de carga passaram por um ajuste metodológico da ANIP após a identificação de uma inconsistência na base do ComexStat. O sistema registrou mais de 650 milhões de unidades importadas da China naquele mês, volume incompatível com a capacidade produtiva, logística e comercial do mercado.

A associação estimou em 706,5 mil unidades o volume efetivamente importado em julho. Para chegar ao número, considerou o peso líquido das importações e o peso médio dos pneus registrados nos meses considerados consistentes.

A pressão dos produtos importados ocorre principalmente no mercado de reposição, responsável por 62% das vendas das fabricantes nacionais. O fornecimento às montadoras representa os outros 38%.

Entre janeiro e agosto, as vendas totais da indústria instalada no Brasil caíram 8,6%, de 25,8 milhões para 23,6 milhões de pneus. As vendas para montadoras ficaram praticamente estáveis, com alta de 0,4%.

 

ANIP defende medidas para reequilibrar competição

Diante do avanço das importações, a ANIP defende junto ao governo federal medidas para buscar condições mais equilibradas de competição no mercado brasileiro.

Um dos principais pleitos apresentados ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) é o aumento da tarifa de importação dos pneus de passeio dos atuais 25% para 35%. A proposta foi apresentada pela entidade em maio.

A medida integra um conjunto de propostas levado ao governo pela ANIP, com apoio de mais de 40 entidades da cadeia produtiva. Entre as sugestões está a adoção de um preço de referência para a entrada de pneus importados no país, com o objetivo de evitar distorções e aproximar os valores declarados nas importações dos preços praticados no mercado internacional.

A associação também cita medidas adotadas em outros mercados. Segundo a entidade, o México elevou a tarifa de importação para proteger a indústria local, enquanto a União Europeia estabeleceu tarifas de até 45,3% sobre pneus importados da China.

Outra reivindicação é o reforço da fiscalização sobre o cumprimento das obrigações ambientais pelos importadores, especialmente em relação à coleta e à destinação adequada dos pneus inservíveis.

Segundo dados do Ibama citados pela ANIP, os importadores acumulam um passivo superior a 500 mil toneladas de pneus que deixaram de ser recolhidos nos últimos 14 anos.

 

Veja também: Futuro do transporte de cargas no Brasil 

Filha de caminhoneiro, formada em jornalismo, resolveu usar a comunicação para manter a classe bem informada e, com isso, formar novas gerações de motoristas profissionais cada vez melhores para o futuro do país.

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