A carga de medicamentos tem sido alvo de roubos de carga, como mostra o recorte dos primeiros três meses do ano. Segundo relatório da nstech, o risco deixou de ser apenas concentrado e previsível para se tornar dinâmico, seletivo e focado no valor e na liquidez da carga.
A principal mudança estrutural evidenciada foi o salto expressivo dos prejuízos envolvendo medicamentos, que passaram de 1,7% no 1º trimestre de 2025 para 22,3% no 1º trimestre de 2026. O levantamento ainda mostra que o crime passou a operar com uma lógica de portfólio focada em valor: 40,4% dos prejuízos do trimestre envolveram cargas avaliadas em mais de R$ 1 milhão, sendo quase metade dessas perdas (44,4%) do setor farmacêutico.
Esse cenário ficou evidente no ataque registrado na última semana. Um caminhão foi alvo de criminosos na zona oeste de São Paulo enquanto transportava medicamentos para tratamentos contra o câncer. Um vigilante que fazia a escolta do veículo foi baleado. A ação envolvendo a carga de alto custo aconteceu em uma saída da Rodovia Anhanguera que dá acesso à Marginal Pinheiros, no bairro Vila Jaguara. Segundo a Polícia Militar, cerca de dez criminosos fortemente armados, em três carros, cercaram o caminhão que transportava os medicamentos.
Na troca de tiros, um segurança foi atingido nas costas e no braço e levado em estado grave para o hospital. O motorista do caminhão chegou a ser sequestrado, mas foi libertado pouco tempo depois. A carga saiu de Cajamar, na região metropolitana, com destino ao Aeroporto de Congonhas, na zona sul da capital. Toda a mercadoria está avaliada em até R$ 6 milhões.
O roubo de cargas de medicamentos virou um dos crimes mais lucrativos para quadrilhas especializadas. Os criminosos miram produtos de alto valor, fáceis de transportar e que podem ser revendidos rapidamente no mercado clandestino, muitas vezes até pelas redes sociais. Além do interesse por medicamentos oncológicos, também cresceu a procura criminosa por canetas emagrecedoras, que chegam a custar R$ 300 por dose, variando até R$ 1.299,70 no tratamento mensal.
Sudeste volta a liderar roubo de cargas, com maior incidência no RJ
O Sudeste voltou a intensificar sua concentração histórica de roubos, saltando de 61%, no primeiro trimestre de 2025, para 78,2% dos prejuízos nacionais no mesmo período de 2026.
O grande responsável por essa alta foi o estado do Rio de Janeiro, que ampliou sua liderança e atingiu 44% dos prejuízos, contra 16,4% no 1º trimestre de 2025 e 17,5% no de 2024. Em contrapartida, a região Norte, que havia chegado a 20,2% no mesmo período de 2025, zerou suas ocorrências em 2026, enquanto o Nordeste cresceu para 20,2%, com destaque para a Bahia, que saltou de 0,7% para 9,2%.
Cresce o interesse pelas cargas de última milha
As cargas fracionadas seguem como a base do risco e lideram o ranking geral com 36,6%, crescimento de 8,2% em comparação com o 1T25. Por outro lado, houve uma inversão notável no roubo de cigarros, que despencou de 34,1% para apenas 3,7% na comparação entre o primeiro trimestre de 2025 e o de 2026.
O Rio de Janeiro, epicentro do risco, concentrou 51,9% de todo o prejuízo do estado, sendo que 60,7% dos roubos fluminenses ocorreram em trechos urbanos. Em nível nacional, a incidência nessas áreas saltou de 18,9% para 38,5%, indicando que o crime está migrando dos corredores logísticos para a “última milha” da distribuição.
Estudo também detalha novo calendário do crime e rotas críticas
O calendário da criminalidade mudou de forma relevante. A quinta-feira disparou e assumiu a liderança, concentrando 30% dos prejuízos, seguida pelas segundas-feiras (20,7%) e terças-feiras (16,5%). O domingo, que representava mais de 10% nos anos anteriores, caiu drasticamente para 1,4%.
Na análise dos horários, a manhã (28,6%) e a madrugada (28%) foram os períodos mais críticos. A madrugada apresentou alta em relação ao primeiro trimestre de 2025, quando registrava apenas 12,4%, sugerindo uma tática de exploração de janelas de menor fiscalização.
Entre as rodovias, a BR-101 (21,6%) e a BR-116 (13%) voltaram ao radar com força e lideraram os prejuízos nacionais nas estradas.
Tecnologia aparece como chave para mitigação de prejuízos
Apesar do ambiente de risco mais dinâmico e inteligente, os investimentos em tecnologia preditiva e rastreamento avançado demonstraram resultados expressivos. Entre janeiro e março de 2026, as gerenciadoras do ecossistema nstech evitaram mais de R$ 72 milhões em prejuízos.
Mesmo com um aumento de 13% no volume de mercadorias gerenciadas — ultrapassando R$ 550 bilhões no período —, a sinistralidade foi reduzida e o volume de cargas recuperadas cresceu 9%.
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Filha de caminhoneiro, recém-formada em jornalismo, resolveu usar a comunicação para manter a classe bem informada e, com isso, formar novas gerações de motoristas profissionais cada vez melhores para o futuro do país.