quarta-feira, julho 6, 2022

Dia Mundial da Água: A importância dos carros pipa em regiões de seca

Já pensou viver sem água? Essa é a realidade de pessoas que vivem do semiárido, sertão e agreste, ambientes comuns do Nordeste. Sem sistema de água encanada e com longos períodos de estiagem, elas precisam que a água seja transportada até elas, daí a importância dos carros pipas em regiões de seca. No Dia Mundial da Água, trazemos essa reportagem especial, onde vamos relatar o dia a dia de pipeiros e os benefícios desse trabalho para quem recebe a água e para quem presta o serviço. Além disso, trazemos atualizações sobre o programa Operação Carro Pipa do Governo Federal e o uso de caminhões que carregam água para outras finalidades. Confira.

Diário de pipeiro em regiões de seca

A importância dos carros pipa para as famílias

De acordo com a Organização das Nacões Unidas (ONU), uma pessoa gasta por mês 3,3 mil litros de água, ou cerca de 100 litros por dia. No Brasil, existem caminhões pipas com capacidade de 5 mil a 30 mil litros de água, ou seja, suficiente para abastecer diversas famílias de uma só vez.

carros pipa
Valdeci Silva mora em Itaitinga, Ceará e recebe água por meio de carros pipa da prefeitura. Foto: Reprodução de vídeo cedido por David Harrop

“A gente não vive sem água. Eu uso a água do caminhão pipa para beber e cozinhar, quando falta, eu tenho que ir buscar longe ” comenta Valdeci Silva, que mora em Lagoa de Bento, Itaitinga, no Ceará, e recebe água dos carros pipa de Davi Harrop, da empresa Água Viva.

No verão, a empresa de Davi transporta, por dia, cerca de 300 mil litros de água em carros com capacidade para 10 mil. O abastecimento para cada família ocorre por volta de duas vezes por semana, pois cada uma recebe cerca de mil litros em cada viagem. No total, pelo menos 300 pessoas são beneficiadas com o recurso mensalmente. E faz muita diferença, afirma Davi, pois em Fortaleza um carro pipa de 10 mil litros pode custar até R$500 para áreas distantes, valor de difícil acesso para as pessoas das áreas assistidas por ele.

“Essas pessoas não tem condição”, reforça Airton Alves dos Santos, morador de Panelas de Miranda, um município de Pernambuco. O pipeiro também é contratado pela prefeitura e entrega água em pelo menos 12 sítios de regiões próximas, beneficiando cerca de 150 pessoas, além de escolas da região.  De acordo com Airton, o abastecimento de pessoas em regiões remotas e de baixa renda é um trabalho muito importante em seu município, pois as barragens são distantes e as secas prolongadas. “De setembro até agora não choveu nada. Com os carros, ninguém fica sem água. Todos aqueles que precisam, recebem” declara.

Para Davi, é uma questão de sobrevivência e de necessidade “As pessoas ficam muito gratas, porque não te como viver em um lugar sem água”. A importância é tamanha, explica ele, pois mesmo casas que possuem poços cavados pela prefeitura, nem sempre tem água disponível. “Não jorra do poço por falta de chuva para encher os lençóis freáticos”, complementa.

A logística do transporte da água em regiões de seca

Davi Harrop possui uma empresa de transporte de água. Da frota de 40 caminhões pipa, 15 são destinados ao carregamento do líquido para famílias de comunidades distantes, em geral sítios afastados. Uma parceria com a prefeitura das cidades abastecidas por meio de licitação.

Caminhão pipa
Dificuldades da estradas para levar água
Foto: Reprodução de vídeo cedido por David Harrop

De acordo com Davi Harrop, a água que transporta é proveniente de poços profundos disponibilizados pela Companhia de Água e Esgoto do Ceará (CAGECE). A água é tratada e depositada em tanques de inox ou fibra de 100 mil litros para depois serem distribuídas. Dependendo da prefeitura, existem os centros de abastecimento do caminhão pipa na própria cidade para levar aos locais remotos. 

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Reservatórios de água tratada para abastecer os carros pipa
Foto: Reprodução de vídeo cedido por David Harrop

Uma das maiores dificuldades é o percurso de mato, areia e  barro. Entretanto, isso nunca impediu o atendimento de nenhuma família. O pipeiro conta que quando chega à cidade de destino, avista os baldes de água do lado de fora da casa de quem será abastecido, uma espécie de código das famílias de que ali o estoque precisa ser renovado.

importância dos carros pipa
Placa na estrada em que Davi Harrop percorre com carros pipa
Foto: Reprodução de vídeo cedido por David Harrop

Já Airton possui uma frota menor, com 3 caminhões, sendo um disponibilizado para a prefeitura para a função. A água quem vem dos poços artesianos e de empresas que fazem o tratamento. Seu carro comporta 8 mil litros. Depois disso, o pipeiro percorre de 30km a 50 km em média por pistas e estradas de terra para chegar a um dos 12 sítios que recebem água da prefeitura. Tudo vai para cisternas coletivas de até 16 mil litros doadas pelo programa de cisternas do governo federal.  

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Chegada dos carros pipa as casas em Itaitinga, Ceará
Foto: Reprodução de vídeo cedido por David Harrop

São 60 viagens por mês para levar água e favorecer 150 pessoas mensalmente. O recurso chega para as família a cada 15 dias, mas quando o nível da água nas cisternas fica baixo, as próprias famílias avisam para secretário da prefeitura para solicitar um novo abastecimento.

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Abastecimento de caminhão pipa e reservatório de família de Itatiba, Ceará
Foto: Reprodução de vídeo cedido por Davi Harrop

A remuneração e as vantagens para os pipeiros

Embora tenha várias frentes de trabalho, é para as famílias vulneráveis que Davi se sente mais contemplado em levar o recurso “Qualquer ser humano se sentiria bem de trabalhar dessa forma, ainda mais sendo remunerado”.

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Pipeiro abastece cisterna coletiva em sítio no interior do Pernambuco
Foto: Arquivo pessoal de Airton
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Airton trabalha com apenas um carro para a prefeitura da cidade de Panelas, mas atende 150 famílias no mês
Foto: Arquivo pessoal

Davi conta que recebe por caminhão contratado cerca de 12 mil por mês. Um dinheiro que ele usa para pagar uma equipe de pelo menos 90 funcionários, sendo 60 deles motoristas. Em períodos de chuva, muitas vezes o abastecimento diminui porque as famílias acabam acumulando água das precipitações. Nesse caso, a prefeitura destina a água para outros trabalhos como rega de plantas ou obras públicas.

No caso de Airton, ele recebe por viagem, como faz em torno de 60 por mês, recebe um valor aproximado de 9 mil reais. O que para ele é uma ótima opção, pois no Nordeste a oferta de empregos é relativamente baixa. Contudo, desse valor, ele gasta 6 mil apenas em óleo diesel. “O diesel tava R$5,30 e aumentou para R$ 6,20”. Agora o pipeiro tenta negociar o aumento no frete.

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Carro pipa de Airton em mais uma parada para abastecimento
Foto: Arquivo pessoal

Para Davi, nem mesmo o valor do combustível impacta a estabilidade do trabalho como pipeiro, pois o trabalho acaba sendo mais estável, principalmente com a prefeitura que faz contratos anuais. O empresário já se cadastrou na Operação Carro Pipa, mas perdeu o interesse. “Para quem trabalha no programa pode ser algo instável, porque se a operação para, você para junto”. 

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Entrega da agua em locais remotos
Foto: Reprodução de vídeo cedido por Davi Harrop

No entanto, ele comenta sobre a relevância e complexidade do trabalho feito pela operação, que atinge áreas com distancias de mais de 150km, em localidades mais comprometidas pela seca e desfavorecidas pela falta de água.

A importância do Programa Carro Pipa do Governo Federal 

De acordo com o  Portal da Operação Carro Pipa, Paraíba é o estado que possui a maior quantidade de municípios assistidos pelo programa (veja no gráfico abaixo). No entanto, Pernambuco possui a maior frota de caminhões e quantidade de pessoas atendidas dentre os nove estados assistidos pela operação, conforme tabela na sequência. 

carros pipa
Dados extraídos do Portal da Operação Pipa referente ao mês de março de 2022 dos estados Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe . Minas Gerais não foi incluído, pois neste mês o programa estava suspenso

ESTADOS QUANTIDADE DE CARROS PIPA  QUANTIDADE DE PESSOAS ASSISTIDAS 
Alagoas 191 148.736
Bahia 776 402.404
Ceará 303 141.777
Paraíba  693 285.529
Pernambuco 956 499.550
Piauí 223 67.993
Rio Grande do Norte 265 112.593
Sergipe 50 32.441
Total 3.457 1.691.023

 

É justamente de Pernambuco nossa entrevistada, Lucineide Maria Sales. Quando o caminhão da Operação Carro Pipa chegava ao sitio da rendeira, trazia alívio junto aos nove mil litros de água, conta. O volume recebido mensalmente era despejado na cisterna e consumido pelos 5 moradores da casa. A rendeira mora em Poço Cercado, município de Jataúba, em Pernambuco, onde as chuvas são raras, praticamente apenas no inverno.

“Eu precisava vender uma cabra para pagar o caminhão. A gente sofria feito cão. Não tinha água para nada”. Na época um caminhão pipa custava R$150 onde Maria mora, hoje o valor é o dobro. Para ela, os três anos em que recebeu água pela operação foram de extrema importância para manter a sobrevivência da família, pois não teria como arcar com as despesa de modo particular, pois se mantinha com apenas um salário mínimo. 

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Cisterna de Lucineide que era abastecida por carros pipa da Operação Carro Pipa do Governo Federal.
Foto: Arquivo pessoal

O serviço ao qual Lucineide se refere é Programa Emergencial de Distribuição de Água Potável no Semiárido Brasileiro, mais conhecido como Operação Carro Pipa, do qual, desde 2008, famílias de regiões do semiárido, agreste e sertão são assistidas. O repasse para a manutenção é feito pelo Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) ao Ministério da Defesa. Quem promove a ação é a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), órgão vinculado ao MDR, juntamente ao exército brasileiro. 

A distribuição é feita pelos pipeiros, contratados por meio de edital, que coletam a água de mananciais e transportam para os pontos com prioridade para cisternas coletivas. De acordo com o Ministério da Defesa, a proporção utilizada é de 20 litros de água /por pessoa/ por dia. Ao todo, 10 estados participam do programa: Alagoas, Bahia, Ceará, Espirito Santo, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Sul e Sergipe. 

Apesar dos benefícios do programa, Lucineide conta que resolveu fazer um poço artesiano em seu quintal, pois a água cedida pelo governo não era suficiente para todas as necessidades. “Era contada. Eu usava para tudo, mas eles falavam que era só para beber e cozinhar, nem para tomar banho, mas eu tomava porque não tinha outra”.  

Além disso, a rendeira afirma que, após um tempo, a água oferecida passou a vir com um gosto ruim “Era uma água salobra”. Já são cinco anos com o poço, uma obra que na época custou no total 5 mil reais, financiada com a venda de bodes de seu rebanho. Apesar do custo alto, a rendeira afirma que valeu a pena, pois agora tem água de sobra “Mudou muita coisa, lavamos a roupa, tomamos banho, só não para beber, os bichos bebem água, se não tivesse feito o poço, os gados já teriam morrido de sede”.

Importância dos carros pipa
A rendeira Lucineide mostra a abundância de água proveniente do poço artesiano em contrasta com a seca Jataúba, Pernambuco.
Foto: Arquivo pessoal

O programa foi suspenso?

Mesmo cancelando o recebimento de água pela operação, Lucineide conta que outros moradores do entorno são beneficiados pelo programa “As operações estão normais, todo dia eu vejo o carro pipa passar para vários sítios daqui “. Não é o mesmo que relata Cristiano Jerônimo, pipeiro em Natal, Rio Grande do Norte, que explica que tem observado diminuição de pessoas assistidas pelo programa e que não estão podendo pagar carro particular. Ele trabalhou para o programa federal de 2010 a 2019 e agora optou por trabalhar diretamente para a prefeitura.

“Desde o novo governo, houve um sucateamento do programa, o repasse foi menor e aumento no combustível minou o trabalho”. Conforme conta, alguns colegas que ainda atuam para o Operação Carro Pipa diminuíram a frota ou estão desistindo por não compensar mais.

Desde agosto do ano passado, veículos de informação, inclusive o portal da Câmara dos Deputados, noticiaram a suspensão do programa Operação Carro Pipa em diversas cidades assistida pelo programa, sobretudo do Nordeste, mas também no semiárido do estado de Minas Gerais. Algumas noticias sobre a paralisação do programa datam de março do ano passado.

No inicio de setembro de 2021, um informativo do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) relatou o retorno do programa e um investimento de quase 440 mil reais na área de segurança hídrica, sendo 99% destinadas ao Nordeste. Já em nota de março deste ano, a assessoria de imprensa do Ministério do Desenvolvimento Regional confirmou a continuidade do programa “O cenário era outro e os recursos necessários foram garantidos e a operação prosseguiu”. 

Pedimos, entretanto, não recebemos até a data do fechamento dessa matéria informações sobre quantidade de carros pipas, famílias assistidas e municípios, volume de água distribuído nos últimos 10 anos de programa para fazer um comparativo entre gestões públicas. 

Nossa equipe fez um levantamento com base no Portal da Operação Carro Pipa, e verificou que o estado de Minas gerais não recebe operações de carro pipa do programa desde outubro de 2021, deixando cerca de 10 mil pessoas de cinco municípios desassistidas. Infelizmente, não conseguimos fontes para entrevistar nesses estados. 

Ainda sobre os dados levantados, observou-se uma queda na quantidade de municípios assistidos pelo programa de 594 em abril do ano passado (período mais antigo mostrado pela plataforma) para 553 em março deste ano. A queda pode ser justificada pela falta do programa em Minas Gerais. Confira essa oscilação no gráfico abaixo. 

Dados extraídos do Portal da Operação Pipa referente aos estados Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe e Minas Gerais. Este últimos até o mês de setembro, quando foram suspensas as operações
Dados extraídos do Portal da Operação Pipa referente aos estados Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe e Minas Gerais. Este últimos até o mês de setembro, quando foram suspensas as operações

A importância dos carros pipa nas diversas atividades

Conversamos com representantes de empresas de carro pipa de alguns estados brasileiros da região nordeste para entender a demanda por água nessas regiões. Em Aracajú, Sergipe, parte da demanda dos caminhões pipas são para terraplenagem e rebaixamento de poeira para duplicação de rodovias, segundo donos de um estabelecimento.

Em Natal, no Rio Grande do Norte, as solicitações por caminhões pipas aumentaram 30% segundo Cristiano Jerônimo, dono da empresa Mar Azul. “Teve aumento no segmento empresarial das empresas de energia eólica. Nós transportávamos 60 mil litros por dia e agora passou para 80 mil”, comenta. No oeste da Bahia, uma das maiores solicitações é para obra e piscinas, sendo mais requerida nos períodos de junho a novembro. 

Já em Maceió, Alagoas, na empresa Manancial Transportes, em que Gilvania Ferreira trabalha, houve um aumento de 30% na demanda de caminhões pipas. Eles aumentaram a frota em uso de 21 carros para 30, sendo os maiores contratantes os hotéis, devido ao turismo do local. Um crescimento geral que ocorreu desde o inicio de 2021, quando a BRK assumiu os serviços de água e esgoto e a cidade passou a ter problemas no abastecimento. 

Em Minas Gerais, Natascha Caroline da empresa Água Viva informou que o abastecimento é feito para todo o tipo de serviço, de empresarial a residencial, e citou um aumento significativo na demanda por carros pipa em decorrência do rompimento de uma adutora em Belo Horizonte, o que tem causado um rodízio de água e falta de abastecimento. 

Veja abaixo o dia a dia dos estradeiros que trabalham com caminhão pipa em Rio Verde/GO.

 

Por Jacqueline Maria da Silva

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