sexta-feira, setembro 18, 2026

Entenda como a IAA 2026 reflete cenário atual: guerras, falta de mão de obra, aquecimento global e importância da Ásia

LançamentosEntenda como a IAA 2026 reflete cenário atual: guerras, falta de mão...

A IAA Transportation, maior feira de produtos e negócios de transporte do mundo, está acontecendo esta semana em Hannover, na Alemanha. Se o transporte comercial sempre foi conhecido como termômetro da economia, este ano a feira reflete também o cenário mundial atual, marcado pela volta de guerras, falta de mão de obra e aquecimento global. Veja como cada um desses assuntos apareceu na edição de 2026 da IAA.

 

Guerras

Desde o fim da guerra fria e a queda do muro de Berlin, o mundo vinha em uma rota de desmilitarização. A Europa cortou verbas bélicas nas últimas décadas e abriu espaço em seu orçamento para questões como a diminuição do aquecimento global, melhor qualidade de vida de seus habitantes, desenvolvimento de novas tecnologias e outras questões sociais e econômicas.

Entretanto, o cenário atual mudou. Nos últimos anos, a tensão militar voltou a subir no mundo. A guerra de Rússia x Ucrânia, que começou em fevereiro de 2022 e muitos acreditavam que seria algo rápido, já se estende por mais de quatro anos. Um pouco mais de um ano depois, em outubro de 2023, começou o conflito entre Israel e Hamas, que já se estende por três anos e envolve muitos outros países. Aliás, desse conflito nasceu outro que afeta o mundo todo: EUA x Irã, que iniciaram as ofensivas em fevereiro deste ano e, por enquanto, sem horizonte de trégua real.

E como isso virou assunto na IAA 2026? Com o crescimento dos veículos de guerra. A Daimler, por exemplo, anunciou uma nova divisão de defesa, a Daimler Truck Defence. A marca aproxima seus veículos de guerra dos usuais do mercado, o que facilita a aquisição e manutenção, que pode ser feita em diversos pontos pelo mundo. A expectativa da Daimler é que essa divisão atinja a marca de 1 bilhão € (euros) de receita, entre produtos e serviços, até 2028.

IAA 2026
Caminhão de guerra da Mercedes-Benz – Zetros

Falta de mão de obra

Um dos principais assuntos do transporte no Brasil é a falta de caminhoneiros. Só que isso não é assunto apenas aqui. A estimativa é que, no mundo, faltem dois milhões de motoristas comerciais. Pensando nisso, os projetos de desenvolvimento de veículos autônomos voltaram a ganhar espaço. A Mercedes-Benz já tinha apresentado, lá em 2014, o Caminhão do Futuro, que provavelmente em 2020, ou no mais tardar 2025, estaria pronto para rodar com o motorista apenas como expectador praticamente. Não aconteceu e a poeira baixou nesse assunto. Só que agora a questão volta com tudo.

A própria Daimler (dona da Mercedes-Benz) anunciou um veículo com direção 100% autônoma, só que para os Estados Unidos. Por meio da marca Freightliner, a representante do grupo no mercado americano, em parceria com a Torc, o grupo anunciou que deve fazer o primeiro teste de veículo sem um motorista de emergência na cabine. O teste será feito ainda este ano e deve se estender por 2027. Em tudo dando certo, a ideia é colocar o veículo em linha de produção já em 2028.

A Daimler justificou a escolha dos EUA como local para esse projeto: maiores distâncias percorridas pelos veículos, rotas mais retas e menos complexas, maior abertura de governo para esse tipo de tecnologia e falta maior de motoristas em relação à Europa.

IAA 2026

 

Já em funcionamento

Mas se no pesado a questão ainda é teste e muito longe dali, no curta-distância a realidade já estava dentro da IAA. A chinesa Neolix colocou seus robôs-vans totalmente autônomos para rodar dentro da feira. A empresa já conta com mais de 27 mil robôs rodando pelo mundo fazendo entregas. Ele é pensado para sistemas fechados ou para o último quilômetro de uma entrega.

A marca agora entra na Europa de forma oficial, com escritório na Bélgica e primeiros testes urbanos na capital, Bruxelas.

IAA 2026

 

Aquecimento Global

Esse é um tema já amplamente discutido há mais de uma década na IAA e no mundo. É verdade que agora tem dividido espaço com guerras, crises econômicas e desdobramentos políticos inesperados, mas como o aquecimento global continua afetando a população do mundo todo, o assunto não pode ficar de fora.

Ele fica evidente na IAA pois 90% dos destaques de lançamentos são voltados à diminuição da emissão de carbono e a veículos movidos a energias alternativas. É verdade que as marcas mostraram soluções a diesel, focando na economia de combustível, que consequentemente traz redução de emissão. Ainda assim, o foco de todos os estandes era na eletrificação, seja pura, seja por meio de células de hidrogênio.

A Mercedes-Benz, por exemplo, falou sobre como o eActros, que foi a estrela da marca na IAA 2024, tem sido um sucesso na Europa, além disso, lançou uma versão do veículo elétrico focada no transporte de alto volume, o Lowliner. O veículo que marca os 130 da invenção do caminhão vem na versão convencional a diesel, mas também no elétrico. E mais, as diferentes possibilidades de carregamento e o investimento em construção da infraestrutura para que de fato os veículos elétricos fiquem economicamente viáveis foram dois temas amplamente discutidos pela marca na feira.

IAA 2026
eActros

Já a Scania apresentou um veículo da série R que promete até 720 quilômetros de autonomia no motor elétrico. Isso porque ele tem um pacote extra de baterias atrás da cabine (como os veículos a gás que a marca tem no Brasil). A autonomia é uma das maiores barreiras que os veículos elétricos encontram hoje.

 

Além do elétrico

Inclusive, também por conta disso, Achim Puchert, CEO da Mercedes-Benz Trucks, afirmou no evento que não será uma única tecnologia que entregará a descarbonização. Karin Rådström, CEO Daimler Truck, em entrevista exclusiva para os jornalistas brasileiros, disse que cada região deve adotar o que fizer sentido naquele local, como é o caso do biocombustível e do gás no Brasil.

Na Europa esse tipo de iniciativa não é tão viável e, para resolver a questão da autonomia nos tiros longos, o hidrogênio tem sido a grande aposta.

A Mercedes-Benz trouxe o NextGenH2 Truck, veículo com célula de combustível que precisa de hidrogênio líquido para rodar. A autonomia passa dos 1.000 quilômetros e o abastecimento é rápido. O veículo entra em teste, com 100 unidades, na empresa alemã Dachser. A primeira unidade começa a rodar ainda em 2026.

No estande da chinesa Dongfeng, até o elétrico era coisa do passado, já que todos os veículos eram movidos a hidrogênio.

Mas nem tudo são flores na descabonização. Karin Rådström, CEO Daimler Truck, fez um discurso bastante forte cobrando as entidades governamentais da União Europeia para que elas também façam sua parte. A executiva afirmou que a indústria tem cumprido seu papel, investindo e entregando tecnologia sustentável e limpa. Entretanto, segundo Karin, o governo precisa pensar na infraestrutura e na viabilidade econômica da tecnologia para os clientes. Segundo a CEO do grupo Daimler, os veículos não serão uma realidade enquanto não houver pontos de carregamento suficiente e enquanto a operação for mais cara que a a diesel.

 

Importância da Ásia

Algo que chamou atenção na feira foi a diversidade. Caras e cores diferentes cada vez mais presentes e cada vez mais ocupando lugares de destaque.

A chamada “invasão chinesa” não é novidade. Entretanto, se antes os chineses ficavam com os pavilhões mais afastados, hoje eles estão em locais de destaque, no meio das empresas europeias e entregando veículos que rivalizam em qualidade.

Outra característica na nova “onda chinesa” é se estabelecer nos mercados importantes. Ou seja, não apenas enviar produtos, mas montar operações nos países europeus, como vimos acima o caso da Neolix e como temos ouvido inclusive aqui no Brasil.

Outra bandeira que tem ficado mais comum na IAA é a da Turquia, com marcas de caminhões, como a própria Ford, e peças.

A Índia também tem aparecido cada vez mais. Não são apenas visitantes na feira, mas sendo representados nas publicidades das marcas, o que mostra que não só a feira é importante para eles, mas que eles são importantes para as empresas expositoras. Como a própria Daimler, que agora oficialmente está na Índia. Então, nos vídeos apresentados ao longo da feira, os indianos estão representados no meio de europeus, chineses e brasileiros.

 

Uma feira mundial como é a IAA Transportation sempre refletiu as tendências principais do transporte, mas fica claro que desta vez ela realmente está refletindo o cenário global de economia, política, meio ambiente e, claro, rumo dos transportes.

 

Jornalista Paula Toco sentada em banco do motorista de caminhão pesado

Jornalista especializada em transporte comercial há mais de 15 anos.
Repórter do programa Pé na Estrada na TV (hoje no SBT) e coapresentadora do programa no Rádio (hoje na Massa FM). Mais de 300 mil seguidores nas redes sociais (Instagram + Tik Tok) onde fala de segurança e legislação de trânsito. Autora do livro “E se eles sumirem?” e palestrante de segurança no trânsito.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Inscreva-se nos nossos informativos

Você pode gostar
posts relacionados